Museu Cais do Sertão: uma viagem pelas terras de Luiz Gonzaga


Parece bonito nas fotos, mais interessante ainda a paisagem da frente, onde um enorme e autêntico juazeiro foi posto à sombra, para receber as visitas dos olhares curiosos e admiradores. Para quem nunca teve a oportunidade de viajar para além do litoral, é quase um presente dado a quem vai ali conhecer ou, simplesmente, passa em frente ao Museu Cais do Sertão Luiz Gonzaga, no Recife.

O equipamento está novinho em folha (foi inaugurado com atraso, em março de 2014), e ainda é novidade para muitos pernambucanos distraídos ou ocupados para tirar um dia inteiro de visitação ao espaço. O museu foi criado para prestar homenagem ao eterno mestre Luiz Gonzaga, o nosso Rei do Baião, em comemoração ao centenário de seu nascimento, e que há exatos 25 anos deixou saudade em muitos corações, e um legado de sentimento e poesia em forma de canções para toda a eternidade.
O aniversário de sua morte foi comemorado no inicio de agosto, mas o ano inteiro a festa do forrozeiro acontece, das paredes para dentro, em um enorme galpão que virou o cenário mais incrível da cidade do Recife. Ali dentro eu quase vi o sertão vivo, tamanha a fidelidade de referências da cultura, música e memória recriadas – tudo isso sem criar estereótipos ou ser piegas.

“Numa tarde bem tristonha gado muge sem parar, lamentando seu vaqueiro que não vem mais aboiar.”

O Cais do Sertão não deixa nada a desejar. Ou melhor, me deixou com vontade de ir ali mais vezes e desfrutar daqueles detalhes que vi rapidamente. No meio do cenário, uma reprodução do Rio São Francisco corta a paisagem de um lado a outro, tal como nas terras de Gonzagão, e nos envolve num misto de som, luzes e clima de aconchego, nos conduzindo aos diferentes “terrenos” da vida sertaneja. A água que nos conduz aos caminhos…

Logo na entrada, o mistério do grande juazeiro da fachada é revelado em um pequeno curta-metragem. A árvore foi retirada lá de Garanhuns, no agreste, desencravada da terra e trazida, ainda com suas raízes, para o Recife, e aqui se tornou o retrato oficial do Museu. Segundo uma das monitoras do museu, a ideia de colocá-lo na entrada foi para reproduzir o largo onde os sanfoneiros do Exu se encontravam.

O juazeiro é uma árvore que dá flores brancas e frutos amarelos, e por servir de sombra e alimento ao gado em épocas de seca, se tornou um ícone forte da cultura sertaneja.

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Da retirada até o replantio, tudo virou filme que está sendo exibido na entrada do Cais. Os minutos de curta são tão curiosos que nos distraem em dias de grande fila. Mas antes de passar pela catraca, saque sua melhor câmera ou vá com o celular carregado porque, dali para dentro, o mundo todo fica para trás. Ainda no salão, ficam expostos utensílios originais que pertenceram ao rei do baião: sua sanfona, seu chapéu e suas vestes.

O museu possui três salas de projeção que abordam a vida, a música e a poesia na região Nordeste. A primeira delas, Sertão Mundo, vai te levar ao meio da exposição, então para ficar mais misterioso, sugiro que você comece o passeio daí. Mas se a sessão já tiver começado ou estiver lotada você pode ir direto para a exposição. No salão principal a representação do São Francisco nos conduz aos demais territórios que demonstram um pouco da vida, do trabalho, da cultura, e da religiosidade dos sertanejos.

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Para quem desconhece o cenário, uma projeção sobre gesso traz informações sobre a vegetação, clima e população local. E assim, através de objetos, imagens e sons, o visitante pode ver, ouvir e imaginar um pouco da atmosfera do sertão nordestino. O mais interessante é que tudo parece ter sido feito a minúcia, desde a pesquisa e documentação até a organização espacial dos objetos, e isso nos faz perdoar o atraso na entrega do museu.

Mas a graça não fica apenas no visual. O Cais também foi projetado para ser um espaço interativo e altamente tecnológico, então há muito para ser desvendado. Jogos, filmes, canções e, no andar superior, quem se arriscar no vocal pode entrar em um dos vários estúdios e gravar uma canção de Gonzagão. E, ao fim do passeio, na sala de instrumentos, é onde funciona a oficina de música, onde crianças e adultos podem se aventurar na mistura de ritmos.
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Isa Grinspum Ferraz é o nome por trás da museografia do Cais do Sertão. Ela é pernambucana, natural do Recife, e participou da equipe de trabalho do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, equipamento que também é referência em dinâmica e tecnologia.

A equipe de criação envolve ainda nomes como Tom Zé, José Miguel Wisnik, Antônio Risério, Frederico Pernambucano de Mello, entre outros. Cineastas como Kleber Mendonça, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Marcelo Gomes, Camilo Cavalcanti, Carlos Nader, Leandro Lima e Sérgio Rozemblit, além do xilogravurista e cordelista J. Borges e dos artistas plásticos Cafi, Derlon Almeida, Luis Hermano e Miguel Rio Branco também produziram conteúdo para o acervo.

Existe uma intenção de expansão para o Cais do Sertão, onde restaurante, cafe, lojinha e até um Centro Cultural estão previstos. A ideia estava no projeto inicial, inclusive, e a previsão é que a segunda etapa do museu seja inaugurada até o final de 2014. Mas, nunca se sabe… Bom, se ficar tão bacana como está o primeiro módulo, vai valer a pena esperar!


➲ SERVIÇO:

Horários de funcionamento: 
Terça, das 9h às 21h | Quarta a sexta, das 9h às 18h | Sábado e domingo, das 13h às 19h.
Endereço: Novo terminal marítimo do Porto do Recife (Antigo Armazém 10), bairro do Recife.
Entradas: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia) | Nas quintas-feiras a visitação é gratuita.
Outras informações: 81 3084.2974

Aline Siqueira

Sou pernambucana, natural do Recife, cidade que atualmente é o meu cais. Jornalista, graduada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), trabalho atualmente como diretora de comunicação em uma agência de conteúdo e digital marketing e também gosto de ser blogueira full time. Amo viajar, escrever, perguntar, aprender coisas novas e experimentar. Curiosa, também me aventuro nas terras do fotojornalismo e tenho como grande paixão e dom fotografar lugares. Desde a faculdade sempre me imaginei um dia trabalhando na Revista Viagem e Turismo. Os caminhos, no entanto, me trouxeram até aqui. Mas, enquanto eu não chego lá, a vida me deu o Entre Embarques, que edito desde 2012, para eu não morrer de emoções jorrando pela boca. Enfim... De avião, de carro, a pé ou de trem, não importa o meio, meu negócio é VIAJAR. Por isso, não esquento se tiver que passar horas em um aeroporto ou num avião porque para mim vira tudo uma aventura. Acho que o segredo é aproveitar a mágica do momento - afinal, o que é viajar se não SE PROPOR, abrir caminhos e expandir horizontes?

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